2020 | Meu Ano Cinéfilo (3/4)

Em Meu Ano Cinéfilo, compartilho as sessões de cinema que marcaram 2020, com um pequeno comentário dedicado a cada filme. 

Nesta terceira parte, 30 filmes vistos pela primeira vez no terceiro trimestre do ano. 

Parte I – Primeiro Trimestre
Parte II – Segundo Trimestre
Parte IV – Quarto Trimestre

***

O Anjo (Ernst Lubitsch, 1937)

Retorno de Lubitsch à direção após alguns anos afastado do ofício, por sinal um comeback surpreendente. Embora a estrutura remeta às histórias de adultério e triângulo amoroso típicas do diretor, com idas e vindas entre Nova York e Paris, o autor sacana dos anos pre-code dá espaço a outro mais amargo e melancólico, enfatizando a inexorável passagem do tempo e extraindo sentimentos devastadores de cada não dito e dos closes no rosto inigualável de Dietrich.

Aquele que Sabe Viver (Dino Risi, 1962)

A ascensão europeia durante o milagre econômico, nos anos 1950, retratada sob um equilíbrio precioso entre humor provocativo e olhar crítico, com ênfase para as transformações comportamentais do período. Um Road movie pelas estradas italianas,  uma corrida desenfreada em busca de felicidade e prazer a qualquer custo – mesmo que se pague com a própria vida. Impossível não associar ao comportamento dos brasileiros nas praias durante a pandemia.

Combate do Amor em Sonho (Raul Ruiz, 2001)

Um dos jogos narrativos mais cerebrais e representativos de Ruiz, especialmente no que diz respeito à estrutura labiríntica perseguida em seus roteiros. Nove histórias que tomam pontos de partida distintos e, através de elementos compartilhados, passam a se cruzar e se reproduzir, dando origem a uma teia narrativa gigante e indomável. Novamente, o prazer reside em se perder pelas bifurcações – Ruíz é o anti-Nolan por excelência, nós sempre soubemos disso. 

Companheiros: Quase uma História de Amor (Peter Chan, 1996)

Outra meditação melancólica sobre a passagem do tempo, dessa vez acompanhando um casal de amantes no avançar de uma década. Encontros e desencontros ao redor do globo, sentimentos reprimidos, momentos desperdiçados e verdades dolorosas guardadas a sete chaves. Devastador, se um tanto mais esperançoso que o filme de Lubitsch. Ainda assim, caso alguém faça uma sessão dupla com os dois, é recomendado separar grana para uns 10 anos de análise. 

Cuidado Madame (Júlio Bressane, 1970)

O fim da civilização ocidental é um filme da Belair. O cenário é o Rio de Janeiro pós-ocupação militar, com relações de classe arraigadas, apartamentos e roupas burguesas sendo manchadas de sangue pelas empregadas. Impossível um filme ser mais brasileiro do que isso, mas as imagens encontradas por Bressane me remeteram o tempo todo aos giallos italianos que passavam a ocupar cada vez mais os cinemas europeus no início da década de 1970.

Dez Céus (James Benning, 2004)

O ápice do cinema estruturalista e observacional de Benning? Possivelmente. Através do olhar e da câmera do diretor, contemplamos o efeito do sol nas cores do céu, a movimentação das nuvens, os sons e o silêncio da terra. O plano final é seguramente um dos mais bonitos já filmados por qualquer ser humano, um enorme ensinamento sobre o tempo e a contemplação da natureza. 

O Direito do Mais Forte à Liberdade (Reiner Werner Fassbinder, 1975)

Fassbinder em um de seus momentos mais amargos, abandonando o melodrama para narrar um conto áspero de danação e tragédia anunciada. O protagonista, interpretado pelo próprio diretor, é um homem pobre e homossexual que inicia uma relação com o filho de um burguês e, logo após se juntarem, finalmente realiza o sonho de ganhar na loteria. Como burguês não pode sentir cheiro de dinheiro, é claro que as coisas a partir desse ponto ficam bem complicadas. 

Elogio ao Amor (Jean-Luc Godard, 2001)

Godard na virada do milênio, com um pé em cada século. Legítima arte de vanguarda, portanto, dificílima de representar em palavras. Demorei alguns anos para ver por pura burrice. É um filme fundamental para investigar o que Godard havia feito antes e o que faria depois – não me lembro de outro filme dele que dialogue tão intimamente tanto com Acossado quanto com Adeus à Linguagem. Certamente um filme para se retornar muitas vezes.

Os Espiões (Fritz Lang, 1928)

Superior ao mais famoso clássico mudo de Lang, Metrópolis, pelo equilíbrio que encontra entre a construção visual elaborada dos cenários, que fizeram a fama do período expressionista do diretor, e a fruição dos planos e das cenas. Precursor do que se conhece hoje por filme de espiões, fazendo ótimo uso dos recursos do gênero – persuasão, segredos e mentiras, códigos, informações veladas e plot twists. Ainda conta com um final memorável em cima de um palco de teatro.

First Cow (Kelly Reichardt, 2019)

A colonização da América selvagem, período representado brilhantemente no cinema estadunidense pelo ciclo faroeste, é mais uma vez reescrita por meio do olhar minimalista e contemplativo de Reichardt. Poucos personagens, raros elementos de cena (uma cabana, um rio, uma cerca, uma vaca, alguns bolinhos), porém suficientes para colocar em xeque as filosofias que tornam a vida no continente americano cada vez mais difícil e desigual. 

Frágil Como o Mundo (Rita Azevedo Gomes, 2001)

A arte de Rita em seu momento mais desafiador, conjugando um intenso desejo por poesia com experimentalismo visual e narrativo. Cada frase entoada como se fosse o mais importante dos versos, cada imagem elaborada como se fosse a última imagem do mundo. Que diante de tamanha pretensão ela saia com uma pequena obra-prima repleta de sentimentos, fantasia e paixão, talvez seja a prova suprema da genialidade dessa portuguesa.

A Grande Jornada (Raoul Walsh, 1930)

Visto hoje parece um nível abaixo das grandes obras de Walsh, cineasta que aperfeiçoou seu estilo ao longo da carreira. Ainda assim é um projeto grandioso e fundamental, que abriria um leque de possibilidades estéticas e narrativas para a transmutação dos mitos da colonização do oeste ao cinema. Filmado em 35mm e 70mm, um experimento audacioso para a época e que rende belíssimas imagens na versão 70mm, bitola que se consolidaria no mercado décadas mais tarde. 

The Hart of London (Jack Chambers, 1970)

Um dos ápices das técnicas cinematográficas experimentais consolidadas pela geração do New American Cinema na NY de 1960 (Brakhage, Mekas, Wharol e cia – embora Chambers seja canadense, estava em total diálogo com esse cinema). Explora a sobreposição de películas, alta exposição de luz, impressionismo visual, abstração narrativa, alternando ciclos de morte e vida por meio de imagens explícitas, que vão do abate de animais ao parto de um bebê. 

O Homem dos Olhos de Raio-X (Roger Corman, 1963)

Só os deuses enxergam tudo”? Na linha de ficções-científicas como O Homem Invisível, a história de um homem que quer testar a ciência até seu limite – ou até descobrir que o limite a ser testado, se existir, pode estar longe demais e não permitir mais volta. O melhor filme de Corman visto até hoje, uma fusão de conceitos filosóficos, existenciais, religiosos e morais em torno de uma história sci-fi bagaceira com apenas 80 minutos. O final na igreja no meio do deserto é brilhante.

O Homem do Planeta X (Edgar G. Ulmer, 1951)

Ficção-científica B com narrativa slow burn, Ulmer tira leite de pedra de um orçamento muito enxuto. Imagino que alguns encontrarão dificuldades de se conectar com a obra devido à sua paupérrima produção. Para quem não se importar com isso (ninguém deveria se importar, é verdade), o filme faz absolutamente tudo que os fãs de Under the Skin costumam argumentar para elogiar o filme, porém com muito mais concisão e força dramática. 

A Ilha dos Mortos (Mark Robson, 1945)

A parceria de Val Lewton com Jacques Tourneur costuma ser mais lembrada (com razão, convenhamos), porém os filmes dirigidos por Mark Robson durante o breve ciclo de horror produzido por Lewton também são ótimos. A Ilha dos Mortos não chega ao nível de O Navio Fantasma, mas traz Karloff num papel que explora muito bem suas feições estranhíssimas, além de uma história envolvente, com pessoas em quarentena enquanto uma praga dizima a população de uma ilha Grega. 

Louisiana Story (Robert J. Flaherty, 1948)

Diretor do antológico Nanook, o Esquimó, Flaherty deixou uma obra breve mas fundamental para o cinema etnográfico, mesclando o caráter documental das imagens captadas in loco com uma fabulação extremamente inventiva em torno dos seus objetos. Nenhum filme subsequente chegou ao nível da obra-prima que é Nanook, o Esquimó, mas são ótimos mesmo assim. Louisiana Story traz um moleque cuja vida idílica em um pântano remoto é transformada com a chegada do progresso.   

Meu Pretzel Mexicano (Nuria Giménez, 2019)

Projeto que remete aos conceitos de Orson Welles sobre o verdadeiro e o falso na arte, quase um cruzamento entre F For Fake e o póstumo The Other Side of the Wind. Aproveitando uma série de rolos de película resgatados de um sótão empoeirado, contendo registros de viagens dos seus avós, Giménez reconstrói com inventividade as personagens e histórias filmadas, aproveitando de modo excepcional o material base (que por si só já era maravilhoso).

Morte no Inverno (William Richert, 1979)

Um ano antes de Brian de Palma encerrar em definitivo a década das ficções políticas conspiratórias com Blow Out, Richert entregava um dos exemplares mais curiosos desse ciclo. Talvez o mais próximo que o cinema chegou do que Pynchon fazia naquele mesmo período com a literatura, sendo a política e a paranóia nacionalista as molas propulsoras de um humor corrosivo, por vezes absurdo, destilando veneno contra todo o sistema político e econômico dos EUA.  

Mortos Que Caminham (Samuel Fuller, 1962)

À altura de Merrill’s Marauders, Fuller já havia realizado uma série de filmes de guerra realistas e brutais (The Steel Helmet, Fixed Bayonets, Verboten!), mas nunca em cores tão vivas e com uma janela de aspecto tão amplo (foi um dos autores que imediatamente entenderam tudo sobre o cinemascope). Para quem conferiu a ótima cópia restaurada de Big Red One exibida pela Netflix, é uma ótima pedida para se aprofundar no olhar detalhista de Fuller sobre o combate.  

Nostos: O Retorno (Franco Piavoli, 1989)

Um dos épicos definitivos da história da humanidade, A Odisseia, em uma de suas releituras mais abstratas e austeras. Profusão de imagens construídas com rara beleza. Luzes, cores, corpos e elementos da natureza conjugados em uma série de planos estáticos que mais se assemelham a pinturas. Sobre voltar para a casa depois da batalha e todo o peso carregado nos ombros após ela.

A Saga de Anatahan (Josef Von Sternberg, 1953)

Objeto estranho e fascinante desde a sua concepção. Produzido no Japão, o último filme de Sternberg recria um microcosmo da civilização em uma ilha tropical, com sua selva sendo inteiramente reconstruída em estúdio. Um grupo de náufragos é levado a adorar e disputar a única mulher da ilha, originando uma série de conflitos, relações de desejo e poder que colocam em questão os princípios da civilização – e o artificialismo dos cenários deixa tudo ainda mais intrigante.  

Sétimo Céu (Frank Borzage, 1927)

Uma obra-prima que ressalta a arte do cinema mudo como suprassumo da narrativa visual. É um melodrama sobre esse casal unido literalmente pela sarjeta, uma relação que avança para os arranha-céus de Paris e é completamente transformada pela eclosão da Primeira Guerra. Borzage em pleno domínio dos recursos narrativos disponíveis à época, desde os planos gerais à montagem paralela e o close. 

Sócrates (Roberto Rossellini, 1971)

Parte do projeto de cinebiografias sobre pensadores e figuras históricas que Rossellini desenvolveu para a TV italiana nos anos 1960 e 1970, apresenta Sócrates em sua luta contra uma sociedade democrática com estruturas de poder totalitárias, encarando falsas acusações e tribunais pouco interessados pela dialética platônica e o diálogo socrático. Revisitar as complexidades da antiguidade é a certeza de encontrar muitas pontes com o Brasil de 2020.

Sympathy for the Underdog (Kinji Fukasaku, 1971)

Desconheço se há influência direta (pelo que me lembro, Scorsese estudava o cinema japonês à época), mas a descrição visual das ruas noturnas de Tóquio, a fotografia contrastada com fortes tons neons, a violência gráfica e a raivosa cena final remetem a uma versão nipônica de Taxi Driver. Independente de ter ou não influenciado o clássico da Nova Hollywood, é mais um excelente filme de crime urbano setentista, com todos os elementos fascinantes dessa década. 

中孚 61. A Verdade Interior (Sofía Brito, 2019)

A menção deste filme na lista contempla também o Telemundo, projeto de Benning do qual Sofia documenta os bastidores – Benning já está listado mais acima, inviabilizando a citação dupla. De todo modo, o filme da Sofía tem um fascínio próprio: o encantamento genuíno que demonstra por Benning, ao ponto de perder o fio enquanto o observa divagar sobre seu filme, sobre si, sobre o mundo. Uma presença tão iluminada que bagunça as coisas. 

A Última Fuga (Richard Fleischer, 1971)

O noir americano transportado para outro tempo e espaço (os anos 1970, as estradas do interior de Portugal). O personagem de Scott poderia figurar em qualquer lista de grandes protagonistas dessas histórias de motoristas outsiders que correm em direção à auto-destruição. É um filme menos lembrado hoje do que seus pares do período, como o superestimado The Driver do Walter Hill, mas não deve nada a nenhum deles. 

A Última Gargalhada (F. W. Murnau, 1924)

A derrocada de um homem pomposo e arrogante, confortável numa posição social que lhe confere um mínimo de poder – até que subitamente perde tudo o que acredita possuir. A perícia e inventividade técnica são habituais nos filmes de Murnau, mas a transformação do personagem de Emil Jannings ainda assim é visualmente surpreendente (aqueles planos subjetivos…) e tornam este uma grande pérola do Expressionismo Alemão. 

Violência e Paixão (Luchino Visconti, 1974)

Visconti filmando uma história inteira dentro de um apartamento, centrado nos dramas íntimos das personagens enquanto sobrepõe ideais da aristocracia conservadora com a rebeldia da juventude nos anos 1960/70. Exemplar em como se debruça sobre o micro para desvendar o macro, e nisso lembra obras-primas como O Anjo Exterminador, de Buñuel, e O Criado, de Losey, sem jamais perder a assinatura inconfundível do autor.

Wolfram – A Saliva do Lobo (Joana Torgal e Rodolfo Pimenta, 2010)

Wolfram cresce quando comparado, por exemplo, a Mascarados. Ambos se assemelham em cenário (mina, pedreira) e na investigação sobre o trabalho braçal. Porém, enquanto em Mascarados a câmera é seduzida por qualquer oportunidade de comentário sociológico, em Wolfram concentra-se rigorosamente sobre a matéria do trabalho, lapidando com esmero cada imagem até erigir uma verdadeira escultura – da qual os méritos são sobretudo estéticos. O restante vem a reboque.

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