As Aventuras de Robinson Crusoé (Luis Buñuel, 1954)

A adaptação de Luis Buñuel para o clássico de Daniel Defoe conserva o ponto de vista subjetivo do narrador-protagonista, mantendo o relato oral como fio condutor da narrativa – a exemplo de seu original literário -, mas o faz com absoluta sabedoria, preservando o essencial das palavras – jamais desperdiçadas – e encontrando imagens fortes o bastante para transformarem a história do náufrago europeu em uma ilha perdida num cinema igualmente impressionante e incômodo.

É um filme sem nenhum romantismo. As imagens são cruas, a forma é direta e econômica, e o interesse de Buñuel reside na loucura que emerge da situação e nos esforços do protagonista para lidar com ela. A relação entre homem e natureza é filmada com densidade, expondo os ciclos de vida e morte. Enquanto o personagem se desloca pela selva à procura de mantimentos, também cuida de alguns animais de estimação que definham com o passar do tempo (cachorro, gato, papagaio), procura meios de caçar e matar outras espécies para se alimentar (tartarugas, cabras), desenvolve habilidades antes inimagináveis para um homem europeu inexperiente com trabalhos manuais.

A construção visual intercala planos gerais da ilha com close-ups de animais, árvores, solo e mar, porém fotografadas com extrema saturação de cores, atribuindo ao filme uma áurea de delírio tropical que se adequa muito bem à obra – e ao próprio cinema de Buñuel, na contramão do senso comum que trata este como um filme menor, geralmente desprezando-o por supostamente não dialogar seus melhores trabalhos. A relação entre homem e natureza retornando às suas origens, como necessidade de subsistência e sobrevivência em meio à solidão, sem uma sociedade constituída no entorno, obrigando Crusoé a conversar com animais e com Deus para tentar se manter lúcido – mas a única resposta que obtém é a do próprio eco de sua voz reverberado pelas montanhas da ilha.

Toda primeira parte da obra é precisa em contextualizar a situação, com algumas ousadias de Buñuel, como a geralmente lembrada sequência de sonho (inexistente no material original) em que Crusoé recebe a visita do seu pai, um defensor da vida da classe média como uma necessária estabilidade para o homem (sem os excessos da burguesia e a miséria da classe trabalhadora), uma assombração que vai nortear os passos seguintes do náufrago na ilha. Crusoé tentará reproduzir naquele espaço os confortos da vida estável, estruturando a agricultura e a pecuária, e com o tempo construindo uma grande cabana que ostenta como um castelo, jarros e utensílios de barro, um barzinho para beber rum, redes de dormir e outros apetrechos, sempre à sombra das profecias do pai.

Mas os privilégios e a fé não salvam o homem da loucura. Se a primeira parte da obra aborda diretamente a solidão do náufrago, na segunda estabelecem-se algumas relações sociais que repensam a estrutura colonialista da exploração européia à África e à América, com o surgimento de tribos canibais e piratas brancos, além do conhecido personagem Sexta-feira, um nativo resgatado da morte por Crusoé que passa a servi-lo. Relação tratada com ambiguidade e ironia por Buñuel, na qual ambos estabelecem uma amizade que flerta com o homoerótico, extrapolando os limites da serventia.

Embora alguns reduzam o filme a uma simples aventura colonialista, a abordagem da relação entre Crusoé e o nativo é emblemática. Sexta-feira aprende inglês não somente para ter acesso à linguagem do europeu, mas também para confrontá-la. No que talvez seja o diálogo mais subversivo do filme, questiona o fato de Deus ter criado o Diabo, insinuando a responsabilidade direta de Deus sobre a maldade no mundo. O que se vê no filme, porém, ilustra a ideia de que as barreiras entre bem e mal são difusas, sendo a violência, por vezes, a única saída para a sobrevivência. Os valores cristãos, na obra de Buñuel, são confrontados com rara audácia, e em As Aventuras de Robinson Crusoé são complexificados até que o filme se torne uma espécie de parábola às avessas, onde ao invés de uma moral esclarecedora a história termine com dúvidas ainda mais acentuadas.

A Carta que Não se Enviou (Mikhail Kalatozov, 1959)

A estranheza do primeiro ato, com seus conflitos piegas e montagem truncada, não nos prepara para a força surpreendente do ato final. Quatro geólogos exploram a imensidão gélida e monocromática da Sibéria selvagem à procura de diamantes, e o que salta aos olhos desde o início é a expressiva cinematografia de Sergei Urusevsky, colaborador de Kalazotov em seus principais trabalhos (Soy Cuba, The Cranes are Flying), e como ela registra esses personagens e o ambiente misterioso e potencialmente hostil que percorrem, flertando por vezes até mesmo com a abstração. A profundidade de campo, o chiaroscuro acentuado e o aproveitamento do espaço e da luz nos planos abertos são os principais responsáveis pela imersão neste cenário que calmamente engole um a um, conforme a natureza relembra aos homens sua vulnerabilidade frente a ela. Tudo se torna mais forte quando os blocos dramáticos irregulares, mediados por flashbacks e pelos diálogos em si, são substituídos por uma fisicalidade angustiante, própria das aventuras de exploração e sobrevivência, com personagens perdendo progressivamente as forças e a lucidez. É um filme mais próximo da fórmula de aventura do cinema ocidental que a média dos pares russos do período, mas nem por isso menos interessante.

Meu Pecado Foi Nascer (Raoul Walsh, 1957)

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Walsh concilia muito bem um olhar crítico emblemático sobre o contexto histórico retratado com uma articulação dramática potente, brilhantemente modulada pela câmera e pelo espaço. Incrível aquele primeiro beijo entre escrava e senhorio, com suas contradições e relações de poder retumbando junto à tempestade, enquanto o vento rebenta as janelas da mansão e a banda sonora é perturbada pelo som da chuva e dos trovões – difícil não lembrar da sequência em que Hupperth e seu estuprador lutam contra o vento para fecharem as janelas do casarão em Elle, em outra relação complexa de atração e violência. É a história de dois escravos, um negro e uma branca. O rapaz, criado como filho por seu senhorio; a mulher, adquirida em leilão pelo mesmo homem (Gable, vínculo direto com o clássico E o Vento Levou…, em que a trama também é atravessada pelo início da Guerra da Secessão, e ao qual foi excessivamente e injustamente comparado à época), preparada aos poucos para ser sua esposa, enquanto uma carinhosa afeição passa a de fato se estabelecer entre ambos. Toda a hora final é bem impressionante e Gable como de costume é uma entidade, mas a grande força do filme reside justamente no conflito dos personagens de Poitier e De Carlo, no quanto ambos são perturbados por essa temerária proximidade com o patrão, que afeta sua sonhada liberdade. “Eu o odeio por sua bondade. Isso é pior do que a violência. Quando um homem usa um chicote, você sabe contra o que deve lutar. Mas essa bondade é uma armadilha que pode mantê-lo na escravidão para sempre”, Poitier afirma em um momento chave. É um melodrama (na acepção mais rigorosa e nada pejorativa do termo) que encara frontalmente essas questões, escolhendo caminhos tortuosos e nem sempre fáceis de se digerir, e que sobrevive ao largo do revisionismo social/histórico superficial de tantos outros filmes interessados nos mesmos temas (patriarcalismo, escravidão, racismo, objetificação da mulher, etc). Mais um bom Walsh à espera de melhor reconhecimento.