Terror nas Trevas (Lucio Fulci, 1981)

Expressão máxima do amor de Lucio Fulci pelo cinema: sua obsessão por sangrar, mutilar, cegar os olhos de suas personagens. Um acontecimento recorrente nas obras do italiano é quando a vontade de desvendar, de ver além do que deveria ser visto, torna-se motivo para alguém perder a visão – ou morrer pelo olho. Uma estaca perfura o globo ocular da mulher que espia pelo buraco da fechadura; o olhar se cega misteriosamente assim que um casal atravessa um famigerado portal. Não poderia existir ideia mais romântica para representar o trabalho de Fulci durante os principais ciclos de produção do cinema fantástico italiano – os giallos da década de 1970, os horrores sobrenaturais da transição para os anos 1980: o cinema como profanação do olhar, como celebração da supremacia poética do imaginário frente às limitações do visível. Se realizar um filme fantástico é arriscar enquadrar o invisível, para apreciar as imagens de Fulci às vezes é preciso se cegar da razão, contradição essencial para a fruição de filmes como Terror nas Trevas

And you will face the sea of darkness, and all therein that may be explored”. 40 anos depois, Terror nas Trevas permanece uma das grandes elegias à arte fantástica já produzidas, o que o torna um filme amado e detestado em medidas quase equivalentes. O pacto firmado por Fulci com suas personagens é estritamente o mesmo reclamado a seus espectadores: uma entrega total às páginas de uma profecia escrita nas chamas do Inferno, e que ao serem lidas ressignificam completamente o mundo como o conhecemos. Fulci rasga as principais convenções do storytelling logo em seu prólogo, e tudo o que o sucede reflete um desejo por testar os limites daquilo que pode ser visto, sentido, percebido ou filmado, criando sequências que implodem os limites da matéria física em cena – a carne humana, os cenários, as imagens – para dar a ver a matéria abstrata. “Sou um médico, não aceitarei explicações irracionais”, resmunga o doutor segundos antes de balear zumbis com uma arma sem munição e fazer uma viagem inesperada para o além, de onde jamais sairá.

Terror nas Trevas comete a audácia de reproduzir em sua estrutura narrativa a lógica dos pesadelos, ou mesmo, para ficar no campo das artes, a lógica de um álbum musical; a força da encenação se encontra justamente nos pontos de conexão entre mídias aparentemente distintas como o cinema e a música, duas formas de expressão artística nas quais as emoções do espectador são manipuladas pela modulação do tempo, dos tons e das formas – visuais, sonoras, sensoriais. Tão logo seja pressionado o play, a atmosfera fantástica suprime a vaga noção de realidade que circunda o hotel onde a história é ambientada, enquanto o encadeamento narrativo se mantém menos interessado em avançar seu fiapo de trama do que em construir uma sucessão de peças independentes e maravilhosas, que perseguem os tons de horror imaginados para cada situação – aproximando-se muitas vezes da abstração e quase sempre da experimentação visual. 

A câmera de Fulci vaga pelo espaço cênico com liberdade à procura deste horror, do fantástico e do grotesco em cena, os quais persegue com o esforço do zoom e dos planos de detalhe. A matéria no entorno da câmera é manipulada de acordo com a necessidade para se alcançar o efeito pretendido em cada situação, operando por meio de uma lógica própria, como em um sonho extravagante. A carne humana em cena está sempre a um passo da desintegração total, e duas gotas de um líquido suspeito podem dissolver um cadáver inteiro em pouco mais de um segundo. Fulci trata o corpo humano como um frágil artefato de carne e sangue como raras vezes se viu, estoura cabeças, rasga membros, fura órgãos, arranca vísceras, corrói crânios e solta seus bichos de estimação para fazerem um verdadeiro banquete da carne dos personagens, reforçando o teor onírico do filme, um pesadelo ad aeternum em que o Mal é esta força suprema que reina no universo e dele se alimenta.

Por estas e outras razões, convém dizer que Terror nas Trevas não é apenas um dos grandes filmes de horror já realizados, como é, especialmente e essencialmente, um dos grandes filmes sobre o horror já realizados, sobre o que representa a experiência do horror no imaginário e no próprio cinema. Ideia que definitivamente é celebrada na conclusão da obra, quando a dupla de protagonistas, um casal outrora cético e que atravessa o filme alheio a todos os acontecimentos fantásticos da história, finalmente é tragado para o “outro lado” do título italiano (L’aldilà), ou para as trevas do título brasileiro, essa imensa paisagem desoladora coberta por poeira, sombras e cadáveres, e da qual jamais encontrarão saída. É o destino final da viagem alucinante proposta por Fulci e a imagem síntese de um dos pontos altos do cinema fantástico italiano, encerrando um filme ao mesmo tempo crepuscular e seminal deste ciclo, para ser apreciado com o coração aberto e os olhos cobertos de sangue.

Texto originalmente publicado no fanzine impresso Zinematógrafo, por ocasião do aniversário de 40 anos do filme

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