Azor (Andreas Fontana, 2021)

Em Azor, longa filmado na Argentina e dirigido pelo suíço Andreas Fontana, cada diálogo provoca um atrito entre as palavras pronunciadas e as não pronunciadas. Se “calar e falar são formas de intervir no futuro”, como escreve Javier Marías no maravilhoso Coração Tão Branco, vemos aqui um filme construído na tensão entre o que é exposto e o que apenas pode ser suposto, onde o espectador é estimulado a imaginar as razões e consequências dos atos – aquilo que verdadeiramente concede peso às situações representadas e que seus personagens, sabiamente, evitam que chegue aos ouvidos alheios.

Graduado em literatura comparada, Andreas bebe na fonte do romance policial argentino, gênero caro à literatura do país (Borges, Bioy Caseres e Cortázar sendo os nomes incontornáveis, embora aproxime-se ainda mais das obras de Saer e Piglia nos anos 1980 e 90), para compor uma atmosfera envolvente de tensão, com a qual nos situa nos bastidores das transações financeiras entre um banqueiro suíço e membros da elite argentina favoráveis ao regime ditatorial, em meados da década de 1980.

Lideranças políticas, empresários, militares, religiosos e trambiqueiros são os convidados de jantares protocolares, encontros em jockey clubes e festas nas quais todos os presentes se assemelham a estátuas de cera, figurantes de um teatro social suspeito e necessário para a manutenção de seus poderes. Se a literatura argentina dá o tom, o clássico Coração das Trevas, de Joseph Conrad, empresta a estrutura de aventura colonial para a jornada do banqueiro, desbravando a elite de Buenos Aires em busca do seu Coronel Kurtz.

As referências dão certo charme à estreia de Andreas, mas seus méritos vêm, sobretudo, das convicções sustentadas pela direção, do rigoroso estudo de mecanismos que movem a elite econômica, da recusa da figura do herói em prol da amoralidade, do modo como vai envolvendo suas imagens em sombras até chegar ao forte plano final, com seu Marlow embrenhado na mata, delirando com a promessa do ouro. Mariano Llinás, diretor de Histórias Extraordinárias e La Flor, colaborou com o roteiro e faz um cameo genial (o bigodinho…) em uma das melhores sequências do filme.

Comentário publicado na edição #31 do Zinematógrafo, fanzine de crítica de cinema de Porto Alegre.

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