Tabu (Miguel Gomes, 2012)

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117 réveillons foram celebrados desde que os Lumière apresentaram ao mundo, como costumava dizer Benjamin, a arte que justificaria a modernidade. Temos no cinema, desde então, uma testemunha incondicional da realidade e da imaginação, um museu contemporâneo, companheiro leal e legítimo do homem: nas suas imagens estabelecem-se laços de memória e de narração, de documentação, reflexão e ilusão, como numa extensão artificial da mente humana. Em um ano cuja indústria do cinema mostrou-se nostálgica com sua própria história, foi o português Miguel Gomes quem apresentou o filme que melhor soube lidar com essa relação. Através de um híbrido entre fábula e memória, sonho e narração, um truque fundamental nos desloca poeticamente do presente para um tempo perdido na história, seja dos personagens que filma, do contexto em que vivem (a Europa contemporânea, a África colonizada) ou do próprio cinema. A linguagem dos filmes mudos se projeta na narrativa através de fluxos de memória, numa experiência que contempla o que há de mais belo e trágico no olhar para o passado, devolvendo ao espectador o que nele existe de mais essencial: o esplendor de sensações carinhosamente preservadas, e que na memória e no cinema podem viver para sempre.