2020 | Meu Ano Cinéfilo (4/4)

Em Meu Ano Cinéfilo, compartilho as sessões de cinema que marcaram 2020, com um pequeno comentário dedicado a cada filme. 

Nesta quarta parte, 30 filmes vistos pela primeira vez no último trimestre do ano. 

Parte I – Primeiro Trimestre
Parte II – Segundo Trimestre
Parte III – Terceiro Trimestre

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O Ano do Descobrimento (Luis López Carrasco, 2020)

Carrasco documenta as dificuldades de vida e trabalho na classe trabalhadora espanhola, a qual expõe suas perspectivas sobre aspectos políticos e morais do país durante bebedeiras na mesa de um bar. As coisas ficam mais complexas à medida em que o dispositivo se torna evidente: gravadas em VHS e emulando imagens de arquivo dos anos 1990, as conversas e histórias narradas descortinam um país (ou um mundo) que avançou muito pouco em 30 anos.  

Bloody Nose, Empty Pockets (Turner Ross, Bill Ross IV, 2020)

Espécie de filme-irmão de O Ano do Descobrimento, embora mergulhe mais fundo na análise geracional. Mockumentary acompanhando o que supostamente seria a última noite de um bar encerrando as atividades – com o adendo de que, na verdade, o bar já fechou, e seus frequentadores estão reencenando aquela noite em frente às câmeras. Inicialmente o filme despertou mixed feelings, mas volto a pensar nele com frequência – e isso é ótimo.

Dias (Tsai Ming Liang, 2020)

Tsai à altura do autor de Cães Errantes, ou seja, mais interessante que o artista de vídeo-instalações de museu que se tornou nos últimos anos. Bela meditação sobre o tempo e, especificamente, sobre o tempo no plano cinematográfico, ou o tempo na carne e pele humana. A exemplo dos seus outros filmes recentes, a imagem é soberana e a palavra não encontra espaço na obra – mas, dessa vez, há ideias mais consistentes sustentando a experiência.

Fourteen (Dan Sallitt, 2019)

Uma década na vida de duas amigas, acompanhando os primeiros passos na vida adulta e as diferenças que levam as partes de uma relação a caminhos opostos. Torna-se cada vez mais dramático à medida que o tempo avança, até chegar a um final desnorteante. E é incrível que, num filme supostamente todo sustentado pela palavra, o plano inesquecível seja justamente aqueles longos segundos de meditação silenciosa da câmera registrando a estação de trem. 

Garota Negra (Ousmane Sembène, 1966)

Diouana deixa sua casa no país natal, Senegal, para trabalhar como babá dos filhos de um casal burguês na França. Chegando lá, precisa cozinhar, limpar a casa e cuidar de todos os caprichos dos patrões. Colonialismo e racismo estrutural em seu aspecto mais didático e constrangedor, com constrastes sociais e relações de poder explicitamente representadas. Uma narrativa central para o cinema africano e um convite para adentar à obra do precursor Ousmane Sembène. 

Luz nos Trópicos (Paula Gaitán, 2020) / É Rocha e Rio, Negro Leo (Paula Gaitán, 2020)

Seja por meio do bate-papo com seu genro ou das pontes construídas entre a América do Norte e a do Sul em seu épico de ficção, Gaitán se revela a grande cronista das Américas no ano 2020. Luz nos Trópicos, em especial, traz alguns dos planos mais complexos e fascinantes do cinema brasileiro contemporâneo, ainda mais fortes à medida em que são exibidos pela primeira vez num festival virtual enquanto a floresta na qual foram rodados arde em chamas. 

Maridos (John Cassavetes, 1970)

É o terceiro filme com longas cenas de bebedeira em bar mencionado na lista, algo que soa como uma assombração considerando o ano pandêmico. Cassavetes refinando seus planos de improvisação que colocam a produção de cinema lado a lado com as jam sessions de jazz, com cada player explorando diferentes escalas de notas em torno de uma mesma melodia. Nesse sentido, Cassavetes, Falk e Gazzara formam indiscutivelmente o melhor trio de jazz do mundo. 

As Mãos Sobre a Cidade (Francesco Rosi, 1963)

Primeiro contato com a obra de Rosi, um filme que expõe fraturas do sistema político italiano e retrata o distanciamento entre os objetivos do povo e dos representantes do povo. A queda de um prédio na periferia de Nápoles, dias antes da eleição municipal, origina uma série de lutas pela sobrevivência – sejam a sobrevivência humana, para a população do local, ou a política, para os líderes envolvidos no caso que precisam livrar a própria pele para disputar novamente o poder.

O Matador (Henry King, 1950)

Outro cineasta que eu ignorava até então, sem razão específica – mas as recentes revisões críticas sobre sua obra convidaram a mergulhar na filmografia. Comecei por O Matador, anti-faroeste ancorado em revisões psicológicas de heróis e vilões, algo que seria visto com maior frequência no cinema em anos seguintes. Pack é uma espécie de pistoleiro cansado, que não quer mais cometer crimes, mas ao qual o crime sempre chama – seja como autor ou vítima. 

A Mulher Que Inventou o Amor (Jean Garret, 1980)

Devorando o sistema pelas entranhas. Uma pornochanchada em que o objeto de desejo sexual ganha a oportunidade de vingar sua condição em frente aos olhos do público, virando tudo pelo avesso. Comentários sociais muito bem articulados com a ficção, mesmo quando são pouco sutis – o que no fim joga a favor do filme. Um mundo inteiro de fingimentos e encenações, do casamento ao orgasmo, da moda à televisão, num delírio formal de pura invenção. 

Oroslan (Matjaž Ivanišin, 2019)

Uma das sessões do Olhar de Cinema que guardei com mais carinho na memória. Muito bonito o olhar de Ivanišin para o cotidiano da pequena comunidade rural, seus contos e causos, acompanhando o impacto da morte de um morador recém falecido nos homens e mulheres que restaram vivos naquele local pacato. Híbrido de documentário e ficção, lembra o cinema de Apichatpong Weerasethakul em seu retrato da comunidade, na exploração do cotidiano e da narrativa oral.  

O Peixe Assassino (Antonio Margheriti, 1979) 

Filme de gênero italiano produzido no Brasil, com locações em Angra dos Reis/RJ. Daqueles exemplares típicos do cinema italiano do final dos anos 1970, quando as melhores ideias já haviam se esgotado e o que restava era testar as combinações mais delirantes de histórias, gêneros e tons. É um thriller de assalto tropical com piranhas assassinas. As coisas não necessariamente se encaixam na maior parte do tempo, e talvez por isso mesmo seja tão divertido. 

Prefeitura (Frederick Wiseman, 2020)

O olhar cuidadoso de Wiseman para as atividades da prefeitura de sua cidade natal, Boston, pode parecer condescendente com o sistema político. Entretanto, ao final das mais de 4 horas, a impressão é a de jamais termos visto uma demonstração tão abrangente da importância e dos desafios do serviço público na vida comunitária – algo que a turma neoliberal jamais fará questão de entender. A hora final, menos focada no prefeito e mais nos agentes públicos, é extraordinária.   

O Profeta da Fome (Mauricio Capovila, 1970)

José Mojica Marins é uma atração de circo que, após uma confusão durante o número no qual deveria devorar uma criança, acaba fugindo pelo sertão e se tornando uma espécie de Messias para a população faminta do interior do nordeste. Filme sobre o subdesenvolvimento, mas também sobre a arte de fazer muito com pouco, condição na qual o artista brasileiro vive desde as origens.

O Quinto Poder (Alberto Pieralisi, 1962)

Thriller especulando uma invasão estrangeira e o controle das massas por meio da emissão de sinais de televisão. O tipo de ficção paranóica com toques de sci-fi que se tornaria popular nos Estados Unidos ao longo da década de 1980 (Videodrome e Eles Vivem vêm à memória imediatamente), porém realizada no Brasil duas décadas antes. Algumas cenas são impressionantes, principalmente a perseguição no topo do bondinho do Pão de Açúcar. 

Responsabilidade Empresarial (Jonathan Perel, 2020)

Perel lê trechos do relatório elaborado pelo governo argentino sobre crimes cometidos por indústrias durante a ditadura, quando entregaram aos militares seus colaboradores ‘subversivos’ – muitos deles desaparecidos ou mortos. Ilustrando a narração, o diretor capta planos da fachada de cada empresa ao melhor estilo tocaia, com a câmera registrando as atividades no entorno de cada empresa de dentro de um carro. Conceitualmente, um dos filmes mais fortes do ano. 

Rosa la Rose, Garota Pública (Paul Vecchiali, 1986)

Visto na mesma tarde de A Mulher Que Inventou o Amor, fica parecendo um sonho da Aldine Muller. Se a visão de Garret sobre o amor é a de um desiludido, a do Vecchiali é a de um sonhador, o que transforma o filme numa espécie de conto de fadas bem perigoso. Afinal, debaixo da profusão de cores, músicas e de todo o encantamento que exala pela Marianne Balsei, há o mesmo e inevitável sofrimento amargo.

O Sal das Lágrimas (Philippe Garrel, 2020)

Dividiu opiniões como poucos filmes do ano e ainda não entendi direito a razão. De fato é um protagonista odioso, porém filmado com distanciamento por Garrel, cuja perspectiva sobre ele se aproxima à do pai do rapaz, um senhor de idade que é praticamente enxotado para fora do filme pela estupidez do filho. Um filho que, aos poucos, perde tudo que possui por seu comportamento arredio, até terminar a história sozinho, batendo uma porta na cara do espectador. Danação bem ao gosto do Garrel. 

O Segredo da Múmia (Ivan Cardoso, 1982)

Por falar em divisão de opiniões, os filmes do Ivan Cardoso costumam passar pelo mesmo perrengue. Confesso ter me divertido muito com esse, humor escroto aliado a um senso de fantasia mais refinado que o esperado, brincando sagazmente com as estruturas, elementos e clichês de diferentes gêneros e subgêneros do horror e da ficção-científica – monstros assassinos, médicos loucos e os populares terrirs americanos dos anos 1980, especialmente. 

Serge Daney: Itinerário de um ‘cine-filho’ (Pierre-André Boutang, Dominique Rabourdin, 1992)

Documentário para TV com mais de três horas de entrevistas com Daney, falando sobre cinefilia, cinema, televisão, imagem. Realizado alguns anos antes da sua morte, no início da década de 1990. Para quem procura conhecer melhor um dos grandes críticos de cinema da França, taí uma excelente oportunidade – muito bom para renovar a fé na cinefilia, no ato de ver e pensar cinema. DOC disponível com legendas em português no Making Off.   


Sibéria (Abel Ferrara, 2020) / Sportin’ Life (Abel Ferrara, 2020)

Ferrara ocupou a Mostra de SP virtual com dois filmes complementares: Sibéria, obra das mais radicais de sua carreira, com um Willem Dafoe atormentado revivendo traumas e horrores isolado na neve; e Sportin’ Life, documentário que inicia sobre a promoção de Sibéria em Berlim e termina, enfim, como um registro do caos instaurado no mundo em 2020 – e como o cinema, de algum modo, pode responder imediatamente a ele. 

O Tango do Viúvo e Seu Espelho Deformador (Raul Ruíz, Valéria Sarmiento, 2020)

Mais uma obra perdida de Ruíz, resgatada e montada postumamente pela Valéria. Aqui o desafio foi ainda maior do que em A Telenovela Errante: sem a faixa de áudio e com buracos na história, ela transforma os obstáculos da montagem em dispositivo e origina assim o conceito de ‘espelho deformador’ revelado pelo título. O resultado é mais curioso que brilhante e aproxima o projeto de algumas técnicas de edição e da atmosfera nostálgica de Twin Peaks: The Return.  

Tempestade Sobre Washington (Otto Preminger, 1962)

Foi o filme escolhido para ser visto na noite em que confirmaram a projeção de vitória de Joe Biden na eleição norte-americana. Inicialmente uma noite feliz, em que se acendia uma centelha de esperança sobre o fim do obscurantismo que dominou a política das Américas. A centelha apagou junto aos créditos finais desse olhar amargo sobre o sistema político americano, que no fim é mesmo incorrigível.

There Will Be No More Night (Eléonore Weber, 2020)

A palavra shot, em inglês, representa o ato de rodar um plano e também o ato de atirar com uma arma – no princípio do cinema, o operador de câmera girava uma manivela parecida com a das metralhadoras da época, dando origem ao termo. Com as novas guerras virtuais, encabeçadas por operadores de drones e satélites, chegou o momento em que a câmera cumpre efetivamente a função de uma arma. Documentário produzido com imagens reais do exército americano. 

The Woman Who Ran (Hong Sang-soo, 2020)

A estrutura em blocos quase simétricos revela indícios da rigidez formal habitual de Sang-soo. Dessa vez, porém, o conceito geral é menos dependente dessa estrutura que outros trabalhos recentes do diretor, fluindo mais da espontaneidade das conversas em cena. A cada novo encontro, seja com amigas ou com a tela de cinema, abrem-se novas perspectivas para o entendimento da protagonista sobre a vida e suas necessárias mudanças. Sang-soo continua em grande forma.

Uma Hora Contigo (Ernst Lubitsch, 1932)

Lubitsch testando os limites da moral no cinema com um discurso totalmente libertino sobre casamento e adultério. A essa altura o humor mordaz do diretor já incomodava muita gente em Hollywood, não por acaso foi lançado apenas 2 anos antes do Código enrijecer ainda mais a regulação dos filmes. Não chega ao nível de suas obras-primas e algumas ideias são discutíveis até hoje. Ainda assim, é sempre ótimo ver um mestre em pleno domínio do seu método. 


Undine (Christian Petzold, 2020)

Petzold e Shyamalan nunca pareceram tão próximos. Undine provoca várias aproximações com o indiano, em especial com A Dama na Água e outras ficções que trazem a fantasia à cena em confronto direto com a realidade cartesiana da metrópole moderna. Aqui o foco é Berlin e os mitos que ela oculta debaixo de velhos edifícios, escombros e lagos. Não chega às vias de fato de uma fantasia explícita, mas o gosto pela fantasia é onipresente na obra.

Parte I – Primeiro Trimestre
Parte II – Segundo Trimestre
Parte III – Terceiro Trimestre

2020 | Meu Ano Cinéfilo (2/4)

Em Meu Ano Cinéfilo, compartilho as sessões de cinema que marcaram 2020, com um pequeno comentário dedicado a cada filme. 

Nesta segunda parte, 30 filmes vistos pela primeira vez no segundo trimestre do ano. 

Parte I – Primeiro Trimestre
Parte III – Terceiro Trimestre
Parte IV – Quarto Trimestre

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Amor Sem Barreiras (Hal Ashby, 1970) 

Filme de estreia de Hal Ashby e projeto embrionário para tendências estéticas que se estabeleceriam no cinema americano ao longo da década de 1970, materializadas na fotografia carregada em sombras e contrastes de Gordon Willis. A tela é preenchida por contrastes sociais, de etnias e visões políticas, além de pequenas histórias ambientadas em guetos novayorkinos, articuladas pelo olhar de um playboy aprendendo a ver o mundo fora de sua mansão.

As Aventuras de Robinson Crusoé (Luis Buñuel, 1954)

Costuma ser lembrado como um trabalho menor na filmografia de Buñuel. É na verdade uma grata surpresa, mais complexa e valiosa do que sugere sua reputação. Um projeto financiado com grana norte-americana e inspirado num clássico da literatura europeia, porém adaptado por um latino ao mesmo tempo iconoclasta e devidamente respeitoso com as tradições. Publiquei comentário mais longo sobre o filme aqui no blog

O Bando das Quatro (Jacques Rivette, 1989) 

Daqueles jogos rivettianos deliciosos em torno dos mistérios da encenação e da encenação dos mistérios. Cruzamento entre a dramaturgia teatral estudada e exercitada pelas personagens e a cosmologia fabular do diretor, conjugando o realismo e o fantástico sem deixar de ser, ao mesmo tempo, ambas as coisas. Se existe um lugar que eu realmente gostaria de habitar é a Paris reimaginada pelo cinema de Rivette em filmes como Duelle, Le Pont du Nord e este.

Bird (Clint Eastwood, 1988)

Um dos trabalhos mais perturbadores de Eastwood, pelo modo como retrata o negro na sociedade americana e a própria figura do artista, um indivíduo engolido pela engrenagem do entretenimento e regurgitado por ela quando não lhe serve mais. A interpretação de Forest Whitaker é daquelas que justificam uma carreira e a viagem do personagem à França, lá pela metade da narrativa, comenta perfeitamente a perversidade da indústria musical nos EUA.   

Crônica de uma Criança Solitária (Leonardo Favio, 1965) 

A estreia de Favio lança um olhar dos mais belos e terríveis sobre a vida de uma criança latino-americana vivendo na periferia em uma sociedade fascista. Da marginalidade urbana aos reformatórios, do lúdico à violência, da ilusão de liberdade ao abandono, Favio encontra imagens complexas para construir uma pequena balada autobiográfica e, ao mesmo tempo, universal. Escrevi um artigo sobre o filme na edição Cinema e Revolta da Multiplot

David Holzman’s Diary (Jim McBride, 1967)

A estreia de Jim McBride é uma espécie de documentário de cinema direto filmado pelo protagonista de A Tortura do Medo do Michael Powell. A câmera ao mesmo tempo como um instrumento vital, narcisístico e violento, materializando a subjetividade de um olhar enquanto expõe as fragilidades, a insegurança, o medo, o desejo de ser amado, a solidão de quem não viveria mais nenhum dia sem as imagens mediadas pela câmera. É tão engraçado quanto triste.

Do Outro Lado do Espelho (Jésus Franco, 1973) 

Free jazz, bares decadentes, fantasmas no espelho, erotismo, traumas freudianos, delírios, assassinatos e Emma Cohen. Um combo do melhor que o cinema de gênero espanhol vinha aprontando no início da década de 1970, filmado com a sofisticação habitual de Franco – um dos cineastas que melhor conjugam poesia e perversão e uma filmografia para a qual vale retornar com frequência (e o cara fez mais filme que o John Ford, dá pra voltar muitas vezes).       

É Tudo Verdade (Orson Welles, 1942) 

Hoje em dia tornou-se fácil acessar o que restou do filme perdido de Orson Welles produzido no Brasil em 1942, principalmente com o lançamento do documentário sobre a produção no Box O Cinema de Orson Welles (Versátil). O doc pouco faz além de contextualizar os fatos, mas traz todas aquelas imagens captadas por Welles no litoral atlântico, encenando a rotina das comunidades de pescadores, que seguem das mais brilhantes filmadas no Brasil até hoje.  

A Estrada da Vida (Federico Fellini, 1954) 

A preferência pela fase neorrealista de Fellini, especialmente entre Os Boas Vidas e A Doce Vida, se confirma com essa fábula melancólica ambientada nas estradas italianas do pós-guerra, com seus artistas itinerantes e duras vidas materializadas em uma relação complexa de dependência. Relata-se que o personagem de Quinn espelha as próprias angústias de Fellini no período, o que ainda atribui ao filme uma carga autorreferencial e masoquista.  

Fora das Grades (Nicholas Ray, 1955)

Western melodramático retomando temas caros aos escritos bíblicos e mitologias europeias, da relação entre mentores e protegidos às escolhas morais e dicotômicas entre o certo e o errado, o bem e o mal. Nas mãos de outro cineasta poderia ser transformado num conto moralista, mas vira uma pequena obra-prima com a sensibilidade de Ray, seu senso espacial único e economia narrativa, sua habilidade em traduzir o peso moral das histórias em imagens poderosas. 

O Fugitivo de Santa Marta (Joseph Losey, 1950) 

Mais que contrabandear questões políticas para dentro de uma estrutura de cinema de gênero, neste aqui Losey literalmente as expõe em tela, retratando a xenofobia e violência de uma pequena comunidade americana em conflito com os ideais de um homem progressista. Seus filmes dirigidos na Europa costumam ser mais lembrados, mas a sequência dos primeiros anos do diretor nos Estados Unidos é também avassaladora. 

Isole di Fuoco (Vittorio de Seta, 1954) 

Um destaque dentre os fabulosos curtas filmados por Vittorio de Seta em viagens pelo interior da Itália na década de 1950. Dez minutos de imagens arrebatadoras registradas em uma comunidade agrária próxima ao litoral, numa conjugação das forças de trabalho dos homens com as forças imprevisíveis da natureza. Ventos, folhagens, ondas e vulcões jamais foram filmados com a mesma magnitude.

Macunaíma (Joaquim Pedro de Andrade, 1969)

Modernismo, antropofagia e o Brasil pós AI-5 revirados do avesso. Joaquim Pedro atualiza a obra de Mario de Andrade criando um dos filmes mais delirantes do cinema popular brasileiro, um caleidoscópio de formas e tons que vai do naturalismo à sátira ao kitsch ao puro escárnio. Pode ter rendido muitos vícios estéticos e dramaturgicos posteriormente desgastados pela TV brasileira, mas isso de forma alguma tira o brilho do filme.  

Mãe Solteira (Ida Lupino, 1949) 

Lupino estreando na direção ao assumir o posto de Elmer Clifton, que adoecera durante as filmagens, contando uma história de desgraça feminina numa sociedade machista. Filme que aproxima a maternidade da loucura, com a mulher gestando uma criança bastarda em meio ao moralismo do pós-guerra. A cena do parto, em especial, impressiona por sua câmera subjetiva e iluminação expressionista, transformando a ação num fragmento de filme de horror.

Martha (Rainer Werner Fassbinder, 1974)

Um conto de aterrorizante humor negro, um humor que dificilmente encontra-se igual fora da obra de Fassbinder. Sintetiza bem a complexidade do trabalho do diretor, ao mesmo tempo à sombra do revisionismo histórico (as inúmeras relações com o nazismo materializadas na violência do homem ariano contra a esposa, a construção visual homenageando Douglas Sirk) e apontando caminhos ainda inexplorados pelo cinema alemão.    

Objeto Misterioso ao Meio-Dia (Apichatpong Weerasethakul, 2000)

Filme ensaístico que explora as potências do registro documental, da fábula, da força do relato oral e das histórias geradas e transmitidas por pequenas comunidades. Em suma, um exercício livre e surpreendente sobre o ato de contar histórias. Revela logo em sua estreia um cineasta de uma sensibilidade muito particular, desde então constantemente imitado mas até então raramente superado. 

Nas Águas do Rio (John Ford, 1935) 

Terceira colaboração de Will Rogers e Ford, comédia sobre intolerância e injustiça social muito ágil e engraçada, com um tom até mesmo incomum para o diretor – mais próximo de Hawks do que o habitual. Basta mencionar que, a certo ponto da história, Rogers queima um museu de cera com personalidades históricas americanas para alimentar o motor de um barco à lenha durante uma insana corrida náutica. 

Nuits Rouges (Georges Franju, 1974) 

O último filme de Franju homenageia os thrillers silenciosos de Louis Feuillade (Fantômas, Les Vampires, Judex), numa brilhante combinação de elementos anacrônicos e modernos. Emula o senso de aventura fantasiosa do cinema silencioso ao mesmo tempo em que retrata Paris com todos os tiques paranóicos da Guerra Fria. Piratas, tesouros, espiões e câmeras ocultas coabitam um mesmo universo de puro amor pela ficção.  

Quem a Viu Morrer? (Aldo Lado, 1972) 

Aldo Lado dirigiu apenas dois giallos nos anos 1970, O Segredo das Bonecas de Vidro e Quem a Viu Morrer?, ambos ótimas obras do gênero ambientadas em cidades medievais. Enquanto o primeiro imagina um universo secreto de perversões em Praga, neste aqui Aldo Lado retorna com o mesmo fim à cidade de sua infância, Veneza. Há uma série de cenas memoráveis, especialmente os assassinatos, com uma assinatura visual simples mas muito bem elaborada. 

O Segredo Íntimo de Lola (Jacques Demy, 1969) 

Demy é convidado para filmar em Hollywood e invade a indústria do cinema com a bagagem de uma década de Nouvelle Vague francesa, carregando junto as imagens de suas obras anteriores, seu senso de fantasia, a melancolia e a poesia do seu olhar para o cotidiano, investigando a cidade dos sonhos em toda sua beleza – para além da indústria do cinema. Um dos filmes mais singelos de Demy, sobre o qual publiquei um comentário mais longo aqui no blog.  

Sibyl (Justine Triet, 2019)

As protagonistas de Triet são mulheres relativamente bem sucedidas em suas profissões mas com um pé no desastre em suas escolhas. Em Sibyl, a psicoterapeuta encontra na nova paciente uma oportunidade para mergulhar numa história envolvente que servirá de inspiração para seu novo romance, tão envolvente que ela própria embarca em um jogo de encenações e metaficções que a desloca de analista a cúmplice, de narradora a protagonista de sua própria teia narrativa.

O Teto da Baleia (Raúl Ruiz, 1982)

Ruíz, o cineasta latino em exílio na Europa, e os antropólogos europeus que viajam à Patagônia argentina para estudar uma língua indígena prestes a ser extinguida – mas quem absorve com facilidade a linguagem do estrangeiro são os índios, que consomem a cultura europeia até as entranhas. O Teto da Baleia envereda por diferentes caminhos até chegar a um ponto em que seu enredo se estilhaça e cada cena revela novas ideias independentes e maravilhosas.  

Tiger Shark (Howard Hawks, 1932) 

O que dizer sobre um Hawks pre-code que abre com um homem sendo devorado por tubarões, numa cena filmada in loco e encenada com animais verdadeiros? Sobre trabalhos perigosos e como estes homens levam suas vidas diante dos riscos da rotina. Alguém sempre fica pelo caminho, sonhos são amputados ou devorados, o dever se confunde com a loucura. Essencial para fãs de Hatari!, para mencionar um filme mais famoso do diretor intimamente ligado a este. 

Tocaia no Asfalto (Roberto Pires, 1962) 

Importante marco do cinema novo, esse clássico baiano é um dos melhores exemplares de cinema policial produzidos no Brasil. Uma trama que mescla coronelismo, corrupção política, assassinatos de aluguel e toda sorte de problemas sociais que afligem o país desde sua colonização. A construção formal é poderosa, a começar pela extraordinária abertura em um pequeno bar no calor infernal do sertão, até as ótimas cenas de tocaia e perseguição do ato final.  

Três Mulheres (Robert Altman, 1977)

Um diretor com quem venho me reabilitando, embora ainda pouco interessado pelos mirabolantes painéis multiplots. Dentre as atualizações de gêneros propostas por Altman na década de 1970 esta pareceu ser uma das melhores (ao lado do western McCabe & Mrs Miller e do neo-noir O Perigoso Adeus). Um drama psicológico que flerta com o surreal, numa brincadeira com a estrutura do thriller que joga com Persona de Bergman até se aproximar ao David Lynch pós-Estrada Perdida. 

Umbracle (Pere Portabella, 1972)

Estreando como colaborador do Estado da Arte, produzi um artigo em torno dos filmes de Pere Portabella realizados durante o franquismo, no qual escrevo mais sobre essa obra-prima. Umbracle apresenta a inventividade de Portabella em toda sua potência, articulando uma série de registros (ficção, documentário, ensaio, entrevistas, poesia, colagens, homenagens, metalinguagens) em um tour de force formal que transforma a Espanha fascista num legítimo cenário de horror – e o cinema num verdadeiro instrumento de emancipação do olhar.

Vento do Leste (Jean-Luc Godard, Jean-Pierre Gorin, Gérard Martin, 1970)

Manifesto crítico (e autocrítico) em duas partes, a primeira sobre as esquerdas, os soviéticos, ideologias e Maio de 68, a segunda resgatando emblemáticos signos norte-americanos, de índios a militares à indústria do cinema, para repensar o imperialismo e a consolidação do sistema capitalista. E tem Glauber Rocha, o cineasta do Terceiro Mundo, indicando qual é o caminho do cinema político. As encruzilhadas do mundo de 1970 se encontram em um mesmo filme.

A Viagem da Hiena (Djibril Diop Mambéty, 1973)

O “Pierrot le Fou senegalês” é precisamente o que a alcunha sugere. Mambéty apropriando a linguagem do colonizador para narrar o sonho do colonizado de atravessar o mar e pertencer ao continente do explorador. Como no clássico godardiano, a fuga tem fins terríveis e alguns corpos explodem pelo caminho. Com justiça um clássico do continente africano, suas imagens e cores saturadas dificilmente serão esquecidas.  

Vitalina Varela (Pedro Costa, 2019)

Costa alcançou uma depuração formal tão fabulosa que cada plano se torna uma pintura, mas suas imagens jamais seriam tão fortes se não estivessem vinculadas a um projeto de cinema dos mais contundentes da sua geração. Acompanhar a rotina de Vitalina, mergulhar em sua intimidade, acessar junto dela a luz vibrante do sol banhando um triste funeral após terríveis noites de dor, é das experiências mais reveladoras do cinema recente.

Parte I – Primeiro Trimestre
Parte III – Terceiro Trimestre
Parte IV – Quarto Trimestre