Retrato de uma Jovem em Chamas (Céline Sciamma, 2019)

Entre a representação do desejo e o desejo pela representação. Marianne e Héloise trocam olhares e recordações, beijos e imagens, produzem memórias sobre a cama e sobre a folha de papel. A intimidade de ambas é filmada com uma intensidade notável, reflete um olhar visivelmente empenhado em retratar o sentimento das personagens. Por vezes esse empenho resulta em um filme demasiadamente composto, seja na disposição dos corpos pelo espaço, na elaboração dos cenários ou na apropriação dos elementos de época, mas o rigor formal é justificado pelo contexto geral da obra. Céline Sciamma sabe sustentar a atmosfera e toma alguns cuidados fundamentais para isso – destaque para a decisão de preservar o som ambiente e não melar tudo com trilha sonora incidental, criando silêncios muito expressivos e permitindo que os gestos e olhares das atrizes ditem o ritmo das cenas.

O Parque (Damien Manivel, 2017)

Filme que Green, Vecchiali, Weerasethakul e outros tantos dirigiriam dormindo, mas que se torna completamente inócuo com toda essa disposição do Manivel para se enquadrar nesse formalismo contemporâneo orgulhoso do próprio esvaziamento. Toda semana um novo filme com personagens e composição visual modulados em torno de nada, menos por esforço de economia e mais por necessidade de disfarçar o próprio vazio. Esse tenta ganhar pontos pela montagem jogar com o campo escópico da personagem, mas é incapaz de elaborar o espaço, um quadro, uma luz, de promover um movimento que verdadeiramente potencialize o campo onírico e o subtexto alegórico. Os raros dados lançados na narrativa conseguem até ser desnecessariamente reiterativos ou ilustrativos – uma discussão sobre o inconsciente para esclarecer desde o início as intenções do filme, as demarcações e a carteira de cigarro para pontuar a transição na segunda parte, aquele beijo horroroso no final. Uma coleção de artifícios inexpressivos da espécie mais irritante.

Vendredi Soir (Claire Denis, 2002)

vendredi

Noite de sexta chuvosa em Paris. A paralisação do transporte público deixa as ruas intrafegáveis, congestionadas por filas quilométricas de automóveis. Em torno deles circulam pessoas sem tempo ou disposição para trocar olhares – ou, em casos mais extremos, que tratam grosseiramente uma mulher segundos antes de acariciar seu cachorro. O colapso da modernidade emerge em Vendredi Soir neste ambiente inóspito em que uma senhora transita à procura de pulsação e oxigênio – uma Paris em clima de canção dark de synthpop, filmada com cores desbotadas, umidade e reflexos de néons publicitários. O abundante uso de closes sugere à personagem uma solitária clausura rompida apenas quando abandona as ruas da cidade para visitar um quarto de hotel barato com o desconhecido com quem flerta na rua. Não sabemos quem são, o que fazem, o que desejam ou esperam do outro. A Claire Denis interessam apenas a nudez, os beijos e corpos entrelaçados. É na vitalidade do orgasmo que o filme atinge seu clímax, e o que antes eram barreiras, restrições de campo na imagem, converte-se em intimidade e sorrisos. Pois, diante das distrações e dos obstáculos do novo mundo, é na fricção dos corpos nus que ainda experimentamos o mais legítimo gozo, momento em que gritos de desespero emudecem frente a um pequeno gemido de prazer.

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