Único longa dirigido por Lorenzo Llobet Gràcia, espanhol cuja carreira foi interrompida pela censura do governo franquista, que manteve seu filme fora de circulação durante décadas. Miguel Marías escreve que, se assinado por um cineasta francês, Vida en Sombras “estaria em todas as Histórias do Cinema”, e é mesmo curioso ainda ser um filme tão pouco visto e estudado. Trata-se de uma obra amplamente metalinguística, antecipando uma reflexão sobre a cinefilia que se tornaria mais presente a partir da década de 1950. A mãe do protagonista literalmente dá o filho à luz numa tenda de parque de diversões onde era apresentado ao público pela primeira vez o cinematógrafo dos Lumière (!). O jovem cresce fascinado pelo cinema, tornando-se um espectador ávido, uma obsessão que o desperta aos ofícios de crítico e realizador. Uma vida mediada pela relação com as imagens, que pode ser tão bela quanto trágica – a sessão de Rebecca, de Hitchcock, em certo ponto da narrativa, é um insight diabólico precioso. Assistindo ao filme décadas depois, e sabendo da trajetória do realizador, o final deixa um gostinho agridoce de redenção por meio da ficção.