Meu Pecado Foi Nascer (Raoul Walsh, 1957)

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Walsh concilia muito bem um olhar crítico emblemático sobre o contexto histórico retratado com uma articulação dramática potente, brilhantemente modulada pela câmera e pelo espaço. Incrível aquele primeiro beijo entre escrava e senhorio, com suas contradições e relações de poder retumbando junto à tempestade, enquanto o vento rebenta as janelas da mansão e a banda sonora é perturbada pelo som da chuva e dos trovões – difícil não lembrar da sequência em que Hupperth e seu estuprador lutam contra o vento para fecharem as janelas do casarão em Elle, em outra relação complexa de atração e violência. É a história de dois escravos, um negro e uma branca. O rapaz, criado como filho por seu senhorio; a mulher, adquirida em leilão pelo mesmo homem (Gable, vínculo direto com o clássico E o Vento Levou…, em que a trama também é atravessada pelo início da Guerra da Secessão, e ao qual foi excessivamente e injustamente comparado à época), preparada aos poucos para ser sua esposa, enquanto uma carinhosa afeição passa a de fato se estabelecer entre ambos. Toda a hora final é bem impressionante e Gable como de costume é uma entidade, mas a grande força do filme reside justamente no conflito dos personagens de Poitier e De Carlo, no quanto ambos são perturbados por essa temerária proximidade com o patrão, que afeta sua sonhada liberdade. “Eu o odeio por sua bondade. Isso é pior do que a violência. Quando um homem usa um chicote, você sabe contra o que deve lutar. Mas essa bondade é uma armadilha que pode mantê-lo na escravidão para sempre”, Poitier afirma em um momento chave. É um melodrama (na acepção mais rigorosa e nada pejorativa do termo) que encara frontalmente essas questões, escolhendo caminhos tortuosos e nem sempre fáceis de se digerir, e que sobrevive ao largo do revisionismo social/histórico superficial de tantos outros filmes interessados nos mesmos temas (patriarcalismo, escravidão, racismo, objetificação da mulher, etc). Mais um bom Walsh à espera de melhor reconhecimento.

Meu ano cinéfilo (2014)

Mudança, viagens, festas de final de ano & otras cositas más inviabilizam meu mês de dezembro para filmes, mas as listas de final de ano são tão inevitáveis quanto os especiais do Roberto Carlos, a overdose de Happy Xmas versão Simone e os shows anuais do Paul McCartney no Brasil; adianto aqui a primeira delas. A relação com os melhores do circuito – no meu caso, do pequeno recorte que acompanhei dele, com notável desinteresse pelo restante – deve ser publicada no Cineplayers junto das demais retrospectivas. Neste post, seguindo modelo criado em 2013, elenco 25 filmes que não estiveram comercialmente em cartaz no Brasil, mas que me marcaram profundamente em 2014. Talvez sirva para buscar recomendações, talvez sirva como registro; possivelmente não sirva para nada.

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25. O Homem que Burlou a Máfia (Charley Varrick, 1973), de Don Siegel

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24. Branco Sai Preto Fica (idem, 2014), de Adirley Queirós

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23. Poeira no Vento (Lian lian feng chen, 1987), de Hsiao-Hsien Hou

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22. Femmes Femmes (idem, 1974), de Paul Vecchiali

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21. Yoyo (idem, 1965), de Pierre Étaix

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20. Sem Sol (Sans Soleil, 1983), de Chris Marker

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19. Só Se Vive uma Vez (You Only Live Once, 1937), de Fritz Lang

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18. Os Indigentes do Bom Deus (Les Savates du Bon Dieu, 2000), de Jean-Claude Brisseau

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17. O Pão Nosso (Our Daily Bread, 1934), de King Vidor

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16. E Agora? Lembra-me (idem, 2013), de Joaquim Pinto

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15. Coração Prisioneiro (Caught, 1949), de Max Ophüls

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14. Gente da Sicília (Sicília!, 1999), de Jean-Marie Straub & Danièle Huillet

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13. Filme Demência (idem, 1986), de Carlos Reichenbach

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12. Gertrud (idem, 1964), de Carl Theodor Dreyer

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11. Pai e Filha (Banshun, 1949), de Yasujiro Ozu

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10. Disparo Para Matar (The Shooting, 1968), de Monte Hellman

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9. Mulher Tentada (Catene, 1949), de Raffaello Matarazzo

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8. Tudo Que o Céu Permite (All That Heaven Allows, 1955), de Douglas Sirk

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7. Os Amores de Pandora (Pandora and the Flying Dutchman, 1951), de Albert Lewin

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6. Flor Seca (Pale Flower, 1964), de Masahiro Shinoda

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5.  Viagem ao Princípio do Mundo (idem, 1997), de Manoel de Oliveira

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4. Os Noivos (Il Fidanzati, 1963), de Ermanno Olmi

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3. O Condenado (Odd Man Out, 1947), de Carol Reed

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2. Sua Única Saída (Pursued, 1947), de Raoul Walsh

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1. Noite de Estreia (Opening Night, 1977), de John Cassavetes